julho 09, 2007

apenas potencial

Sentado ao lado dela. Achava estranho como gostava de estar na sua companhia. O que o incomodava, na verdade, era a confusão que, em alguns momentos, instalava-se dentro do peito. Já havia sentido tantas coisas diferentes por aquela garota que não sabia mais como classificá-la para si mesmo. Amizade, apreço, desejo, carinho, ... amor. Será que gosta de mim de forma assim... tão... múltipla?! E deixava escapar um sorriso, do nada. Ela, curiosa, não deixava passar em branco. Ele arranjava imediatamente qualquer razão que o liberasse de ser completamente franco, constrangedoramente sincero.

Ambos, loucos, continuavam a esperar uma prova mais concreta, um movimento mais evidente que nunca iria acontecer.

maio 02, 2007

quase confidentes

Final da tarde. Ela passou pela quadra e diminuiu o passo para admirar a luz alaranjada... oblíqua. Árvores e grama. Cenário comum em Brasília. Parou.

Quanto tempo poderia ficar fitando as flores meio lilás, dispostas nos galhos compridos e sem folhas de uma árvore que mais parecia saída de algum filme japonês? Era tão linda. Vai ver a vida se realiza nesses momentos.

Atravessou a rua e resolveu deitar debaixo daquela Senhora tão exuberante. Agora a via de outro ângulo, mas com a mesma admiração. De repente, sentiu como se ela quisesse se comunicar. Uma flor pousou levemente em seu rosto. Devia estar dizendo: "Por que estás tão sozinha?".

- Não sei... o certo é que eu não deveria estar aqui. Tenho muitas coisas por fazer, pouco tempo pra tudo.

E a Senhora continuou lhe encarando, com seus milhares de olhos... "Tem uma ruga na sua testa..."

- Já vi. Ou melhor, sinto-a todos os dias. Mas não sei como resolver. Na verdade, nem sei direito o que se passa. Às vezes, acho que é falta de amor, às vezes, excesso. Às vezes, acho que é a solidão latente que me acompanha no meio das presenças sempre distantes na minha vida. Tudo parece tão perto, mas é sempre tão longe.

Um vento mais forte passou entre elas, balançou aqueles galhos secos de folhas, cheios de flores.

- Não, não. Eu estou bem. E se não estiver, vou ficar. Eu sempre fico bem. É só essa nuvem que me incomoda. Parece pesar sobre os meus olhos, meu pensamento, meu coração. Parece me tirar todas as certezas e substituí-las por dúvidas com as quais não sei lidar.

Duas flores mais tocaram-lhe o corpo. Uma na barriga, outra no cabelo. Ainda deitada, a menina tinha os olhos brilhantes. Catou a flor ao alcance de suas mãos, trocou mais um sorriso com a Senhora e levantou-se.

- Se der, amanhã eu volto.

março 17, 2007

o que tu não vês

Eu não queria te dizer que te amo. Mas meu coração se precipitou.

Não queria te abraçar e beijar-te assim, mas minha boca foi mais rápida que a minha prudência.

Não era a minha intenção me entregar tão plenamente, deixar-te dominar o meu pensamento, a minha cama, o meu tempo. Meus planos foram pro espaço, meus receios não fizeram a mínima diferença.

Lembrei que tinha pedido algo novo ao vento. Às vezes, a gente pede sem pensar.

Agora fico eu aqui, brigando com os meus sentimentos, minhas preocupações. E tu disperso, sem pensar na tormenta que me está acontecendo.

Horrível é ter que falar de números quando se quer realmente falar de flores.

março 09, 2007

esclarecendo o crime

Quando se recuperou do estado hipnótico em que se encontrava, aproximou-se um pouco. Com movimentos extremamente lentos, calculados centímetro a centímetro, foi ocupando o pequeno corredor entre o armário e o lado direito da cama. Agachou-se para ver melhor seu rosto. O vento balançava a cortina um pouco transparente. De repente, ela puxou o ar com mais força, largou o travesseiro, trocou de lado, encolheu as duas pernas. Ele arregalou os olhos e prendeu a respiração. Teve medo de que ela o pudesse ouvir. E agora? O que faria? Que loucura mais mal planejada essa na qual ele tinha se metido.

Queria deitar no espaço que ela parecia ter deixado agora para ele. Quem sabe, ela estivesse sonhando e se ele a beijasse, ela retribuiria seu beijo. Tocou o colchão. Passou a mão no lençol perto de suas costas. Testou apertar um pouco a espuma pra ver se ela se movimentava. Nada. Tudo parecia convidá-lo a dizer sim ao seu impulso. Ele, então, levantou um pouco e foi sentando devagar num pedaço mínimo da cama. Sentia-se meio bêbado de adrenalina. Ia tentar tocá-la, mas teve medo. Tentou só sentir o calor de seu corpo e foi acompanhando o desenho dos ombros, da cintura, dos quadris.

De repente, teve um surto de caretice e sentiu-se na mais absurda das situações. Saiu da cama, deixou o quarto. A adrenalina parecia ter desaparecido e a culpa subiu à cabeça. Ia já em direção à sacada, quando algo o fez novamente parar.

Momentos sublimes esses das decisões repentinas e alucinadas. Sempre me surpreendo com elas.

Pegou um papel e uma caneta perto do telefone e escreveu o bilhete que deixou no sofá: "Perdoe-me a invasão do apartamento, mas quem começou foi você. Amo-te profundamente."

março 08, 2007

companhia...


Invadiram a vista da minha janela. Assim, sem permissão. Chegaram sem que eu percebesse e foram ficando, como toda paixão arrebatadora.

fevereiro 09, 2007

dentro do espelho

Às vezes, a gente mente pra si mesmo. Mente de verdade. Mente, pensando que as coisas, bem fantasiadas, podem ser mais reais.

E pensa na verdade e se convence de que ela é concreta demais pra ser vivida. Olha pra ela e deixa-a lá, adormecida. Como se a tal garota pudesse ser embalada e guardada até um momento mais oportuno.

O problema é que a gente mente e, no fundo, sabe que está mentindo. Abre a gaveta só pra ver se a menina está lá mesmo e continua existindo. Porque a mentira que a gente constrói tem a esperança de que a verdade desapareça. Que ela evapore de alguma forma em algum lugar para dar chance daquela mentira existir sozinha e se tornar mais verdadeira.

Pobres corações humanos. Sempre escolhendo sofrer a prestações, com medo do pagamento a vista.

janeiro 03, 2007

e aquele copo vazio...

Começava o espetáculo.

Ele via sozinho, com uma lata de cerveja na mão. O coração tão cheio, parecia cheio de nada. Doía-lhe o vácuo.

Os fogos começaram a brilhar nas gotas que escorriam em sua bochecha. E, cada vez, a visão foi se tornando pior, mais desfocada, mais turva.

Salgado o rosto, destemperado o peito. Todo o amor que sentia não lhe bastava mais. Amar alguém estava tornando-o vazio. Precisava de algo que certamente ia além da sua vontade, da sua esfera de ação. Precisava ser resgatado por alguém.

O que será que o ano novo lhe guardava? Será que lhe guardava alguma coisa?

A cerveja no fim e a madrugada, o ano, a vida, só no começo. Um começo marcado por um choro silencioso, que, cortado pelo barulho dos estouros cada vez mais esparsos, parecia lhe doer ainda mais.