março 09, 2007

esclarecendo o crime

Quando se recuperou do estado hipnótico em que se encontrava, aproximou-se um pouco. Com movimentos extremamente lentos, calculados centímetro a centímetro, foi ocupando o pequeno corredor entre o armário e o lado direito da cama. Agachou-se para ver melhor seu rosto. O vento balançava a cortina um pouco transparente. De repente, ela puxou o ar com mais força, largou o travesseiro, trocou de lado, encolheu as duas pernas. Ele arregalou os olhos e prendeu a respiração. Teve medo de que ela o pudesse ouvir. E agora? O que faria? Que loucura mais mal planejada essa na qual ele tinha se metido.

Queria deitar no espaço que ela parecia ter deixado agora para ele. Quem sabe, ela estivesse sonhando e se ele a beijasse, ela retribuiria seu beijo. Tocou o colchão. Passou a mão no lençol perto de suas costas. Testou apertar um pouco a espuma pra ver se ela se movimentava. Nada. Tudo parecia convidá-lo a dizer sim ao seu impulso. Ele, então, levantou um pouco e foi sentando devagar num pedaço mínimo da cama. Sentia-se meio bêbado de adrenalina. Ia tentar tocá-la, mas teve medo. Tentou só sentir o calor de seu corpo e foi acompanhando o desenho dos ombros, da cintura, dos quadris.

De repente, teve um surto de caretice e sentiu-se na mais absurda das situações. Saiu da cama, deixou o quarto. A adrenalina parecia ter desaparecido e a culpa subiu à cabeça. Ia já em direção à sacada, quando algo o fez novamente parar.

Momentos sublimes esses das decisões repentinas e alucinadas. Sempre me surpreendo com elas.

Pegou um papel e uma caneta perto do telefone e escreveu o bilhete que deixou no sofá: "Perdoe-me a invasão do apartamento, mas quem começou foi você. Amo-te profundamente."

março 08, 2007

companhia...


Invadiram a vista da minha janela. Assim, sem permissão. Chegaram sem que eu percebesse e foram ficando, como toda paixão arrebatadora.

fevereiro 09, 2007

dentro do espelho

Às vezes, a gente mente pra si mesmo. Mente de verdade. Mente, pensando que as coisas, bem fantasiadas, podem ser mais reais.

E pensa na verdade e se convence de que ela é concreta demais pra ser vivida. Olha pra ela e deixa-a lá, adormecida. Como se a tal garota pudesse ser embalada e guardada até um momento mais oportuno.

O problema é que a gente mente e, no fundo, sabe que está mentindo. Abre a gaveta só pra ver se a menina está lá mesmo e continua existindo. Porque a mentira que a gente constrói tem a esperança de que a verdade desapareça. Que ela evapore de alguma forma em algum lugar para dar chance daquela mentira existir sozinha e se tornar mais verdadeira.

Pobres corações humanos. Sempre escolhendo sofrer a prestações, com medo do pagamento a vista.

janeiro 03, 2007

e aquele copo vazio...

Começava o espetáculo.

Ele via sozinho, com uma lata de cerveja na mão. O coração tão cheio, parecia cheio de nada. Doía-lhe o vácuo.

Os fogos começaram a brilhar nas gotas que escorriam em sua bochecha. E, cada vez, a visão foi se tornando pior, mais desfocada, mais turva.

Salgado o rosto, destemperado o peito. Todo o amor que sentia não lhe bastava mais. Amar alguém estava tornando-o vazio. Precisava de algo que certamente ia além da sua vontade, da sua esfera de ação. Precisava ser resgatado por alguém.

O que será que o ano novo lhe guardava? Será que lhe guardava alguma coisa?

A cerveja no fim e a madrugada, o ano, a vida, só no começo. Um começo marcado por um choro silencioso, que, cortado pelo barulho dos estouros cada vez mais esparsos, parecia lhe doer ainda mais.

novembro 05, 2006

coragem

Olhava para o armário aberto. Era uma quantidade razoável de roupas. Seus olhos viam muito além dos cabides.

Contabilizou o que restava na conta bancária. Entre Google e os sites das companhias aéreas, estudou possibilidades.

Uma mochila para o computador, uma bolsa maior para as roupas, um estojo para o oboé. De partida para Buenos Aires.

Teria que explicar para milhões de pessoas sua decisão, mas deixaria para depois. O fato precisava ser consumado.

Olhou o pequeno apartamento uma última vez. Respirou fundo, fechou a porta e virou a chave.

setembro 17, 2006

a 120 por minuto

Sim, aquilo era loucura.

Ao mesmo tempo que admirava as facilidades do mundo atual, ao lembrar do quão fácil foi encontrar seu endereço e saber sua rotina, sentia seu corpo formigar um pouco, como se a adrenalina, de certa forma, desse-lhe impulsos contraditórios a cada instante. Alguma coisa o empurrava para frente, outra lhe puxava para trás.

O clima quente do cerrado conspirava a seu favor. A janela da sacada estava entreaberta. No meio da madrugada, com a quadra completamente vazia e os poucos postes de iluminação, soltou o freio de mão do carro e empurrou-o pra bem perto. Olhou para um lado... olhou para outro... hesitou. De repente, subiu no capô e pulou para agarrar o parapeito.

Quando fez isso, pensou que era a criatura mais burra da face da Terra. Não iria conseguir sair dali. A queda era fatal. Entre todos os "ai meu Deus" que passaram pela sua cabeça, seu corpo foi se contorcendo para ultrapassar a sacada e, como num passe de mágica, viu-se com metade do corpo para dentro da casa de Lúcia.

Recuperou-se da aventura um pouco e, agachado no escuro, olhou para o balançar suave da cortina e abriu um sorriso ainda tímido, mas com os olhos muito bem abertos e brilhantes.

Tirou os sapatos e entrou. Foi reconhecendo lentamente o terreno e avistou o quarto dela. Passou a porta e a viu de camisola branca, deitada de bruços, agarrada ao travesseiro. Uma das pernas dobradas. A calcinha era azul. Nele, o coração quase saía pela boca. Sentia o peito estremecer a cada batida.

Ficou incontáveis minutos ali, admirando seu objeto de desejo.

setembro 02, 2006

perdendo a noção

Chegou atrasada. Todos já estavam lá. Na hora, pensou que não deveria ter chegado tão tarde, porque agora precisava cumprimentar todo mundo. Se tivesse sido uma das primeiras, os outros é que precisariam vir até ela. Enfim, não poderia ser diferente, já que ficou horas decidindo se iria ou não.

Muitos sorrisos e ocupou a cadeira ao lado da criatura com quem não tinha tanta empatia. Mais uma agrura dos que chegam por último. Como não conseguia sentir-se bem deixando espaço para o silêncio, virava uma máquina de puxar assuntos com perguntas cujas respostas não lhe interessavam. O que queria mesmo era que as vibrações acústicas naquela mesa continuassem suprindo os ouvidos de todos e principalmente os dela.

Acompanhou os outros na cerveja. Com o estômago vazio e o humor blasé que lhe acompanhava naquela noite, não demorou muito para que começasse a sentir os lábios formigarem. Quando se deu conta disso, as pausas da sinfonia desencontrada daquela conversa demoraram mais a lhe preocupar e ficou mais quieta. As pupilas dilataram um pouco. Sem perceber, ficava com os movimentos mais lentos. Mas havia muito tempo que não sentia isso e resolveu curtir um pouco a mínima embriaguez.

Pediu mais um copo e voltou a falar. Ria mais. Bebia devagar, mas a mão que segurava insistentemente a taça fazia movimentos mais largos e mais estranhos. Demorava mais a perceber quando a alça da blusa caía. Olhava para o colega ao lado, franzia a testa e deixava de prestar atenção ao que ele dizia. Ficava tentando entender por quê não gostava dele. Não conseguia lembrar. Naquele momento, ele até lhe parecia mais bonito. E, nos silêncios que correspondiam a sua vez de falar, ria, dizia "pois é...", "sim!", "nossa!", pois sabia que, na maioria das vezes, as pessoas só querem ser ouvidas. Um diálogo de verdade sempre foi muito difícil de ser estabelecido, principalmente porque, a cada dia, aprendia que uma das coisas mais difíceis de se encontrar eram pessoas que compartilhassem dos seus conceitos.

Como era fraca para a bebida, pensava. E ria ao pensar que as pessoas não aproveitavam seu momento de embriaguez, pois seus rompantes de sinceridade se tornavam muito mais intensos. Mas quem iria querer, ali naquela mesa, que fosse sincera? E ria mais.

A saideira. Agora acompanhava os três últimos sobreviventes da noite. O clímax do poder do álcool já havia se dissipado. Os próprios efeitos da bebida lhe diminuíam o ritmo para enxugar o copo. Entre poucos, perdia algumas discrições. Nada de muito importante, mas coisas que não explicitaria sobre sua vida se estivesse sóbria.

Tarde. Foram embora. Aceitou a carona de um amigo. Na frente de casa, agradeceu, olhou-o com ternura e deu-lhe um beijo lento nos lábios. Paralizou o rapaz. Gargalhou, pediu desculpas e saiu do carro.

Pobre homem. Não sabia que aquilo não significava nada para ela.