"...falavam de coisas mínimas, alheias ou próprias, tudo o que bastasse para os reter disfarçadamente na contemplação um do outro." (Machado de Assis, Esaú e Jacó)
fevereiro 21, 2006
que remédio?
Tua bula não tinha contra-indicações
Viciei-me na superdosagem.
fevereiro 18, 2006
invasão de espaço
Imagine o ambiente de um bar não muito cheio. Agora, tente vislumbrar aquele espaço perto do balcão onde se pedem bebidas. Sempre existem, por ali, pessoas conversando. E... se, por acaso, você vir um casal de amigos se encontrar, espere meia hora e você poderá analisar três situações distintas. Existiria até uma quarta, mas eu confesso que nunca vi acontecer.
Primeira:
O casal permanece praticamente no mesmo lugar, a mesma distância um do outro, conversando. Nesse caso, pode ter certeza: eles são realmente só amigos, gostam da companhia um do outro e, pelo menos "via de regra", não têm nenhuma segunda intenção.
Segunda:
O casal aparenta mais próximo do que estava antes, tocam-se "acidentalmente" uma vez ou outra e entreolham-se diretamente a maior parte do tempo, como se não existisse ninguém ao lado. Bom... aí eu nem preciso dizer. As segundas intenções estão muito claras. Os momentos seguintes só vão depender da personalidade do casal.
Terceira e a mais desagradável:
O casal não está mais ali. Inicialmente, você pensa que foram embora. Depois, chegando um pouco mais perto e desviando das outras pessoas, você percebe que eles estão ali ainda, mas andaram uns bons 5 passos para a direita. A moça pode estar com os braços cruzados, meio virada, olhando para todos os lados menos pro cara. O caso é típico: como está a fim dela, ele fica invadindo o seu espaço, tentando se aproximar. Ela, a cada vez que tenta restituir os centímetros quadrados que lhe são de direito, tem que caminhar um tantinho pra trás. Como o conhece, a moça fica sem jeito de dar um belo fora no rapaz e não sabe o que fazer para sair dali.
Olha... se você vir uma situação como a terceira, tenha dó da menina. Chame o rapaz pra conversar!
A quarta situação seria o contrário. O casal ter caminhado para a esquerda. Mas... sei lá... acho que as meninas têm outras táticas... e os meninos não têm tanta resistência...
fevereiro 09, 2006
confuso
Ruiu-se. Como um castelo de cartas. Queria reconstruir-se de outra forma, mas não sabia por onde começar.
fevereiro 01, 2006
caríssimo,
Mas é bem provável que as trinta-réis de bico amarelo não tenham percebido a marca que deixaram na minha máquina. Muito menos desconfiam da sua passagem por esse caminho. Sorte a delas. Imagino como seria complicado conhecer todas as marcas que deixamos ao atravessar inúmeros caminhos invisíveis.
Elas eram lindas, caríssimo. A manhã também. Espero que consigas imaginar pelo borrão.
Beijo.
janeiro 19, 2006
na tua presença...
Enquanto todos bebiam e falavam alto no apartamento, ela pegou o aparelho, os fones e os chinelos e desceu.
A noite tinha acabado de cair. A lua estava baixa, amarela, enorme. Ao sentar à beira do mar, fez Villa-Lobos começar. Todos os acordes pareciam combinar com o cheiro da areia. Passou a respirar fundo e seu coração parecia bater mais lentamente. Era capaz de sentir o peito estremecer no ritmo compassado - acellerando e diminuendo - do Trenzinho Caipira.
Olhou pra lua durante muito tempo. Via aquele reflexo fascinante na água. Imaginou-se boiando naquela mancha branca, recebendo no rosto as palavras alvas do astro. Será que a veria de forma diferente se estivesse ali? Como seria ser duplamente invadida, pela melodia que lhe fazia sentir no meio da floresta e pelo clarão da lua, flutuando sobre as leves ondas daquele comecinho de oceano?
Estirou-se pela areia abrindo os braços. Fechou os olhos. Pôs-se a falar.
Então... agora, sim, dá pra conversar. Agora somos só eu e Você.
janeiro 15, 2006
a desvendar nesse ano novo...
Poderia ter sido uma história comum. A moça iria para o cinema e ficaria curiosa sobre a trilha sonora. Ao permanecer sentada durante os créditos, veria aquele rapaz, com os cabelos encaracolados, e dividiria sua atenção entre as obras e seus compositores e os cachos e aquele elástico. Mas sairia do cinema sem cumprimentá-lo. Quem sabe, o encontraria novamente, dali a alguns meses, num restaurante japonês ou numa casa de boliche. Numa peça de teatro ou num concerto. Passeando pelo Eixo Monumental, ele, distraído, olhando para cima, esbarraria nela e ela pediria desculpas. Ela notaria a gargalhada dele. Ele ficaria curioso sobre aquele jeitinho de levantar na ponta dos pés.
Mas isso é subjuntivo.
No indicativo, numa multidão de possibilidades, as letras dele esbarraram com as dela. Entre um uivo e outro, as imagens que se formavam entre aqueles três espelhos em triângulo lhe chamaram a atenção. Aconteceu tudo ao contrário. Do fim para o começo, conheceram letras, voz, imagem, pele e cheiro. De trás pra frente na exposição, já tinham bebido metade da água quando conseguiram ver o copo.
Complexo, não?! Não mais do que desafiar a distância, que convive com uma estranha proximidade desses dois corações enlaçados.
dezembro 19, 2005
desligamento
Alguém diria que estava buscando apagar de sua memória aquela parte de sua vida, totalmente dedicada a ela. Quem sabe, ele realmente estivesse pensando nisso quando estilhaçou a primeira fotografia. No entanto, sua lembranças se tornavam cada vez mais vivas enquanto ouvia a laceração daqueles papéis. De todos os músculos de seu corpo, o que se encontrava mais rijo estava no meio do peito. Juntou os montes. Jogou-os pela janela e assistiu a queda de cada um deles, demoradamente, acompanhando o trajeto vertical de vinte andares até o asfalto movimentado em plena Av. Paulista. Por algum tempo, os pedaços ainda voavam, carregados pelo movimento dos carros, das pessoas. Poucas chegaram a olhar pra cima, tentando entender de onde vinham aquelas minúsculas imagens incompreensíveis.
Encheu os pulmões com o ar cinza e pesado e sentiu-se mais forte. Sentou, pôs os cotovelos nos braços da cadeira, acomodou suas costas no encosto estofado, juntou as pontas dos dedos das duas mãos e, com eles, apoiou a boca e parte do queixo. Esperava, olhando fixamente para a porta. Pouco tempo depois, duas batidas. Imóvel. Duas mais. Seus olhos nem piscaram. Já acostumado com a escuridão da sala, viu o trinco se mover lentamente. Sentiu-se pronto.
Enfim, era mesmo seu melhor amigo. Uma mão abria a porta, agora bruscamente, a outra envolvia a cintura de sua mulher. Beijava-a. Levantou-a em seus braços e fechou novamente a sala chutando a porta.
Ele, por um momento, fechou e apertou as pálpebras, mas abriu-as novamente, sem lágrimas, sem amor.
Quando chegaram à mesa, baixou o braço até o interruptor.