março 02, 2006

recado

Tinham passado 15 minutos de um vendaval sem precedentes. Na televisão, não precisaria esperar muito para que pipocassem as notícias de tragédias. Se antes a casa uivava através das fresta das janelas, agora parecia ter mergulhado num profundo silêncio. Logo o vento voltaria calmo, como sempre.

Resolveu sair de casa naquela tarde nebulosa. Aproveitar o pouco tempo antes da chuva. Sentir o cheiro da umidade.

Pôs o pé na areia. Estava gelada. Inflou o peito. Sentia-se só. A solidão se agravava por pensar que estava estagnado. Sua vida parecia sempre a mesma. Foi se aproximando do mar e sentiu algo alcançar seus pés. O vento suave fez enrolar em seu tornozelo um tecido frio. Olhou-o.

Ficou maravilhado quando abriu o tecido. Tão fino e tão leve, misturava cores muito vivas de rosa e azul. Notou fios dourados trançados na trama. Em uma das franjas, uma corrente amarrada. Carregava um pingente de lua e estrela. Parecia ouro.

Sentou-se na areia. Ainda podia sentir um levíssimo perfume no tecido. Deixou sua imaginação divagar.

De repente, levantou-se. Enrolou a canga sobre os ombros, deixando-a bem à mostra. Segurou a corrente entre os dedos e caminhou na direção contrária ao vento.

Caminhos misteriosos, pensou.

fevereiro 21, 2006

que remédio?

Quis diagnosticar-te para mim
Tua bula não tinha contra-indicações
Viciei-me na superdosagem.

fevereiro 18, 2006

invasão de espaço

Existe uma verdade meio negligenciada por aí: as pessoas costumam ocupar um espaço maior do que o representado pelos limites do seu corpo.

Imagine o ambiente de um bar não muito cheio. Agora, tente vislumbrar aquele espaço perto do balcão onde se pedem bebidas. Sempre existem, por ali, pessoas conversando. E... se, por acaso, você vir um casal de amigos se encontrar, espere meia hora e você poderá analisar três situações distintas. Existiria até uma quarta, mas eu confesso que nunca vi acontecer.

Primeira:
O casal permanece praticamente no mesmo lugar, a mesma distância um do outro, conversando. Nesse caso, pode ter certeza: eles são realmente só amigos, gostam da companhia um do outro e, pelo menos "via de regra", não têm nenhuma segunda intenção.

Segunda:
O casal aparenta mais próximo do que estava antes, tocam-se "acidentalmente" uma vez ou outra e entreolham-se diretamente a maior parte do tempo, como se não existisse ninguém ao lado. Bom... aí eu nem preciso dizer. As segundas intenções estão muito claras. Os momentos seguintes só vão depender da personalidade do casal.

Terceira e a mais desagradável:
O casal não está mais ali. Inicialmente, você pensa que foram embora. Depois, chegando um pouco mais perto e desviando das outras pessoas, você percebe que eles estão ali ainda, mas andaram uns bons 5 passos para a direita. A moça pode estar com os braços cruzados, meio virada, olhando para todos os lados menos pro cara. O caso é típico: como está a fim dela, ele fica invadindo o seu espaço, tentando se aproximar. Ela, a cada vez que tenta restituir os centímetros quadrados que lhe são de direito, tem que caminhar um tantinho pra trás. Como o conhece, a moça fica sem jeito de dar um belo fora no rapaz e não sabe o que fazer para sair dali.

Olha... se você vir uma situação como a terceira, tenha dó da menina. Chame o rapaz pra conversar!

A quarta situação seria o contrário. O casal ter caminhado para a esquerda. Mas... sei lá... acho que as meninas têm outras táticas... e os meninos não têm tanta resistência...

fevereiro 09, 2006

confuso

Perdeu-se. No meio de tanta paixões, ele não sabia mais o que era desejo, o que era amor, o que era ilusão. Entre tantos quereres, impossível seria pedir para que ele dissesse onde queria chegar. Foi dizendo sim, sem ao menos pensar por quantas esperanças teria que se responsabilizar. Não mediu promessas e não se preocupou com o como iria alcançar todas a barras que deveria segurar. Sem perceber, foi dizendo não para si mesmo. Enrolou-se nas próprias palavras. Estava preso em tamanha liberdade.

Ruiu-se. Como um castelo de cartas. Queria reconstruir-se de outra forma, mas não sabia por onde começar.

fevereiro 01, 2006

caríssimo,

Elas voaram na minha frente. Assim. Sem ao menos respeitar o tempo de exposição do virtual negativo. Ficou tudo tremido mesmo. Voaram como ele voou. Como o tempo dele comigo. Como o meu tempo comigo mesma. É impressionante como os momentos que se tornam eternos na minha memória sempre me parecem tão efêmeros quando estão no meu presente. Tornam-se passado muito mais rápido do que eu gostaria. Mas eu sinceramente gosto de olhar as marcas de deixei pra trás nesse caminho. Contemplá-las. Depois voltar a olhar à frente, por mais que não saiba o que vai acontecer, confiando que cada passo dado com um equilíbrio entre cautela e ousadia passe a se tornar mais uma marca iluminada na estrada que vou deixando. Lembranças.

Mas é bem provável que as trinta-réis de bico amarelo não tenham percebido a marca que deixaram na minha máquina. Muito menos desconfiam da sua passagem por esse caminho. Sorte a delas. Imagino como seria complicado conhecer todas as marcas que deixamos ao atravessar inúmeros caminhos invisíveis.

Elas eram lindas, caríssimo. A manhã também. Espero que consigas imaginar pelo borrão.

Beijo.


janeiro 19, 2006

na tua presença...

Enquanto todos bebiam e falavam alto no apartamento, ela pegou o aparelho, os fones e os chinelos e desceu.

A noite tinha acabado de cair. A lua estava baixa, amarela, enorme. Ao sentar à beira do mar, fez Villa-Lobos começar. Todos os acordes pareciam combinar com o cheiro da areia. Passou a respirar fundo e seu coração parecia bater mais lentamente. Era capaz de sentir o peito estremecer no ritmo compassado - acellerando e diminuendo - do Trenzinho Caipira.

Olhou pra lua durante muito tempo. Via aquele reflexo fascinante na água. Imaginou-se boiando naquela mancha branca, recebendo no rosto as palavras alvas do astro. Será que a veria de forma diferente se estivesse ali? Como seria ser duplamente invadida, pela melodia que lhe fazia sentir no meio da floresta e pelo clarão da lua, flutuando sobre as leves ondas daquele comecinho de oceano?

Estirou-se pela areia abrindo os braços. Fechou os olhos. Pôs-se a falar.

Então... agora, sim, dá pra conversar. Agora somos só eu e Você.

janeiro 15, 2006

a desvendar nesse ano novo...

Poderia ter sido uma história comum. A moça iria para o cinema e ficaria curiosa sobre a trilha sonora. Ao permanecer sentada durante os créditos, veria aquele rapaz, com os cabelos encaracolados, e dividiria sua atenção entre as obras e seus compositores e os cachos e aquele elástico. Mas sairia do cinema sem cumprimentá-lo. Quem sabe, o encontraria novamente, dali a alguns meses, num restaurante japonês ou numa casa de boliche. Numa peça de teatro ou num concerto. Passeando pelo Eixo Monumental, ele, distraído, olhando para cima, esbarraria nela e ela pediria desculpas. Ela notaria a gargalhada dele. Ele ficaria curioso sobre aquele jeitinho de levantar na ponta dos pés.

Mas isso é subjuntivo.

No indicativo, numa multidão de possibilidades, as letras dele esbarraram com as dela. Entre um uivo e outro, as imagens que se formavam entre aqueles três espelhos em triângulo lhe chamaram a atenção. Aconteceu tudo ao contrário. Do fim para o começo, conheceram letras, voz, imagem, pele e cheiro. De trás pra frente na exposição, já tinham bebido metade da água quando conseguiram ver o copo.

Complexo, não?! Não mais do que desafiar a distância, que convive com uma estranha proximidade desses dois corações enlaçados.