Dor intempestiva a da perda. Tamanho fôlego de vendaval no curso das ondas de escuridão afetam os nervos.
Vitrine única, a pele é um filtro quase perfeito. Mas será que só escapam os tons de dourado?
"...falavam de coisas mínimas, alheias ou próprias, tudo o que bastasse para os reter disfarçadamente na contemplação um do outro." (Machado de Assis, Esaú e Jacó)
Dor intempestiva a da perda. Tamanho fôlego de vendaval no curso das ondas de escuridão afetam os nervos.
Vitrine única, a pele é um filtro quase perfeito. Mas será que só escapam os tons de dourado?
Quando ultrapassaram o meio-fio, ela o pegou nos braços.
- Esse matinho machuca.
Colocou-o novamente no chão quando chegaram na areia fofa.
- Ei! Olha como a sombra tá grande!!!
- Hehe... e não é?! Somos dois gigantes...
Além dos que acordavam cedo para correr na beira do mar, ninguém mais deixava pegadas por ali. Brincaram um pouco com o sol nascente.
- Adivinha o que é isso...
- Ai... deixa ver... é um coelho.
- Isso!!
Fizeram monstros, aviões, galos,... tudo o que as sombras das mãos puderam inventar.
- Ei... olha pra lá. Tá vendo aqueles pássaros?
- Tô. O que são?
- São gaivotas. Quer me ajudar a tirar umas fotos?
- Eu posso?!
- Claro. Vem bem devagarinho comigo. Não podemos assustá-las.
Ela falava baixinho no ouvido dele. Dáva-lhe orientações precisas. E ele amou aquela decolagem que colocou na memória da câmera. Aproveitou para deixar uma foto dela entre as muitas que já havia dele.
- O sol tá levantando. Vem que eu vou passar protetor em você.
Olhava com uma ternura imensa aquele rostinho de pele tão perfeita. Tascou-lhe um beijo no pescoço.
- Desculpa. Não resisti.
- Hehehehe...
- Quer dar um mergulho?!
Ele tinha medo, mas ela lhe passava um sentimento forte de segurança. Enquanto ele chutava a água, caía, catava uma concha, descobria um buraco, voltava a levantar, ela sorria e lhe roubava discretamente alguns momentos mexendo nas lentes.
- Anjo! Olha só!
- O quê?
- Vem cá um minuto.
As tatuíras tinham arranhado seus pés. Pegou uma. Ele recuou num primeiro momento, depois percebeu que não tinha com que se preocupar. Adorou descobrí-las e colocá-las cuidadosamente, de volta, na areia molhada.
- Você vai ficar aqui amanhã também, né, tia?!
- Eu vou, meu amor. Amanhã também.
Abriu um sorriso enorme, abraçou sua cintura e olhou novamente para dentro dos olhos dela. Não percebeu o outro mar se formar. Correu atrás das águas... feliz.
Preciso arranjar um desses pra mim. O problema é conseguir um grande, antes.
Finalmente o tinha rendido em sua cama. Podia cheirar seu pescoço, beijar-lhe o canto da boca, morder sua orelha. Sentir seu peso e sua língua. Bagunçar-lhe os cabelos, arranhar suas costas, passear pelo seu corpo e conhecer cada mancha, cada pinta.
Gostou de se enrolar em seus braços, substituindo o lençol. E sentiu aquela respiração calma em sua nuca...
Alguém poderia dizer que foi isso que a fez adormecer. Mas era outra a razão do torpor... bem mais intensa.
Tem rua que tem cheiro. Óbvio. Mas o que eu quero dizer é que tem lugares que têm cheiro de gente que eu conheço. Nitidamente. Como uma brisa que envolvesse o meu corpo na imediata lembrança de alguém.
Quando isso acontece, o normal é ficar amolecida e, ao mesmo tempo, inquieta. Ressabiada. Como se pudesse esbarrar na criatura a qualquer momento.
O fato é que minha memória marca alguns perfumes. Que não são, exatamente, perfumes. Então, pode ser que o caminho não seja o que aparenta ser, à primeira vista. É difícil dizer se o cheiro está realmente no ambiente ou se se esconde dentro de mim mesma.
Assim que a porta se fechou atrás dela, balançando na entrada da padaria, avistou o moço saindo da cozinha e chegando no espaço estreito do balcão para despejar uma fornalha de pães ardentes. Chegou perto da atendente e perguntou, meio boba ainda, Saíram agora?!. A garota, com um dia longo nas costas dentro daquele inferno, olhou-a com desprezo e simplesmente acenou com a cabeça.
Esbugalhou os olhos e pediu oito. Enquanto esperava o pacote, olhou sedenta para a parte de frios e varreu as prateleiras numa velocidade incrível, até que avistou a latinha laranja. Pegou os pães embalados e teve certeza “Esses aqui merecem.”.
Quando saiu, nenhuma sombra daquela nuvem pesada de chateações parecia ter sobrevivido. Catou o celular e fechou os olhos por um momento. Vai dizer que sim! Vai dizer que sim! Vai dizer que sim!.
Tenho uma surpresa pra você, pode chegar em 10 minutos? Chegaria em 15, provavelmente, mas o sim já bastava para deixá-la ainda mais radiante. Pelos metros que restavam até alcançar o prédio, parecia uma criança depois de comprar doce. Duas sacolas brancas, uma em cada mão.
Surpreendeu-a na porta do apartamento. Já estava quase aqui quando você me ligou. E o beijo saiu atrevido. Ó! Sente só...
A sintonia mais profunda se percebia enquanto rasgavam o pão, esperavam a manteiga derreter e colocavam aqueles pedaços na boca como se fossem pedaços de céu.